Talento em breve trecho…” Protopoema lhe chamou e aqui fica: “

 
 
           "Do novelo emaranhado da memória,
            da escuridão dos nós cegos,
            puxo um fio que me aparece solto.
            Devagar o liberto, de medo que se desfaça
            entre os dedos.
            É um fio longo, verde e azul, com cheiro de limos,
            e tem a macieza quente do lodo vivo.
            É um rio.
            Corre-me nas mãos, agora molhadas.
            Toda a água me passa entre as palmas abertas,
            e de repente não sei se as águas nascem de mim,
            ou para mim fluem.
            Continuo a puxar, não já memória apenas,
            mas o próprio corpo do rio.
            Sobre a minha pele navegam barcos,
            e sou também os barcos e o céu que os cobre,
            e os altos choupos que vagarosamente deslizam
            sobre a película luminosa dos olhos.
            Nadam-me peixes no sangue e oscilam entre duas águas
            como os apelos imprecisos da memória.
            Sinto a força dos braços e a vara que os prolonga.
            Ao fundo do rio e de mim, desce como um lento e firme
            pulsar de coração.
            Agora o céu está mais perto e mudou de cor.
            É todo ele verde e sonoro porque de ramo em ramo
            acorda o canto das aves.
            E quando num largo espaço o barco se detém,
            o meu corpo despido                              
            brilha debaixo do sol, entre o esplendor maior
            que acende a superfície das águas.
            Aí se fundem numa só verdade as lembranças confusas
            da memória
            e o vulto subitamente anunciado do futuro.
            Uma ave sem nome desce donde não sei e vai pousar
            calada sobre a proa rigorosa do barco.
            Imóvel, espero que toda a água se banhe de azul
            e que as aves digam nos ramos por que são altos
            os choupos e rumorosas as suas folhas.
            Então, corpo de barco e de rio na dimensão do homem,
            sigo adiante para o fulvo remanso
            que as espadas verticais circundam.
            Aí, três palmos enterrarei a minha vara até à pedra
            viva.
            Haverá o grande silêncio primordial
            quando as mãos se juntarem às mãos.
            Depois saberei tudo."
 
 
              De José Saramago, in "Pequenas Memórias" (2006)
           
 
 

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